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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Divina Comédia




Inferno

Logo que chegou a porta do inferno, Dante deparou-se com enorme fila. Seu guia, Saramago, alertou-o que as filas são comuns no reino da infelicidade eterna. Esta primeira, era para marcar data em que deveria comparecer à repartição responsável por emitir documentação exigida pelos porteiros ifernais. O guia de nosso heroi explicou – Quatro são os documentos que deverás carregar por todo o tempo em que estiveres no inferno: primeiro deverás provar que chegastes a este mundo, com data, hora e o nome daqueles que te trouxeram, além, é claro, de testemunhas que comprovem a veracidade de tua chegada; segundo, terás que dizer a todos quem tu és, logo, te darão uma identidade em papel, com teu nome e um dos dedos, será seu primeiro número; terceiro, e logo depois, entrarás na fila para saberem que tu existes como devedor do Leviatã, pagador de todas as taxas impostas para garantir a continuidade de serviços deste inferno; por último, mas não menos importante, precisarás registrar tudo o que fizer como ofício, então tens de ter um documento para seus trabalhos, sem isto não sairás do limbo. Ainda será bom se portares papel dado pelos representantes de Deus, para que fique sempre claro que sabias por que leis seria julgado – Assim, tão obrigado quanto foi sua estada no inferno, Dante apresentou-se aos funcionários responsáveis e retirou a documentação nescessária. Tudo passou rápido, Dante entrava como convidado compulsório, não esperou em filas e foi diretamente atendido. Claramente, ver Dante passar a frente fazia parte do inferno de outros.

“Vai-se por mim à cidade dolente,

vai-se por mim a sempiterna dor,

vai-se por mim entre a perdida gente.

Moveu justiça o meu alto feitor,

fez-me a divina Potestade, mais

o supremo Saber e o primo Amor.

Antes de mim não foi criado mais

nada senão eterno, e eterna eu duro.

Deixai toda esperança, ó vós que entrais.”

Imagem de A Porta do Inferno, por Auguste Rodin, inspirada na obra de Dante. Inscrição neste mesmo portão, por Dante.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Ainda os muros

condominio

Comuns em cidades medievais, os muros protegiam moradores contra ameaças externas em um mundo em que a violência era grande. Guardavam pessoas em quantidades de 5 a dez mil, com algumas exceções, no espaço de algum senhor.

Comuns em cidades contemporâneas, os muros protegem os espaços privados contra ameaças externas e olhares curiosos. Guardam quantidades imensas de pessoas, as vezes mais de um milhão, e colocam limites ao que é público.

...

Niterói é uma cidade atípica em seu estado e no Brasil. Está entre as melhores qualidades de vida do país e possui parte considerável de sua população enquadrada no que chamamos de classe média.

Como em muitas cidades, os muros estão presentes. Nem sempre separam o privado do público. Construídos ao redor de casas, sim, mas também feitos cercando quarteirões, ruas e tudo o mais que estiver dentro de seu perímetro. São condomínios tranformando em privado o que é do público, impedindo o acesso à ruas e praças. Apropriação indébita em nome da segurança de quem pode pagar por terra.

O público tem preço. Depois de anos de ocupação, os condomínios receberam proposta para comprar o que foi ocupado. Ao que parece a atual administração não tocou mais no assunto e também esqueceu do que foi tomado ao povo. O Ministério Público lembra.