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quinta-feira, 30 de julho de 2009

Divina Comédia

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Inferno

Continuando sua aventura pelo mundo sem luz, Dante, dirigindo seu carro, passou quatro horas preso no trânsito, percorrendo uma distância de dois quilômetros.

A distância era curta, Dante sugeriu a Saramago que fossem caminhando, mas o mestre explicou que, naquele círculo do inferno, andar não era permitido, pois a única forma de sofrer as penas devidas se dava pelos meios de transporte, coletivos ou individuais. Aos que caminhavam quando possível cabia o purgatório.

No princípio o calor era terrível, e claro, por ser castigo, o ar-condicionado do carro não funcionava. As janelas abertas eram o espaço de entrada para os braços de demônios vendedores (fica a dúvida sobre se eram demônios ou mais almas condenadas) vendiam toda forma de produtos com origem duvidosa. Saramago contou que para alguns, o castigo incluia dores de barriga e a pressa de chegar ao banheiro de casa, causada por balinhas de côco vendidas nos sinais. Ficou claro que nem todos os apressados de trânsito recebiam o mesmo castigo.

Em um segundo momento começou a chover torrencialmente. As janelas tiveram que ser fechadas, o ar ficou abafado e os vidros enbaçados. A água que caia enchia a rua, almentando a tensão de todos no trânsito que estava mais lento. As businas, que tocavam desde o início, agora tocavam de maneira mais frenética. Dante lembrou que passara por situação parecida quando presenciou as penas para os desrespeitosos de ônibus, mas desta vez não estava espremido. Pensou em como estas penas estão ligadas, o inferno dos veículos individuais agravando o inferno dos coletivos.

Observando o carro ao lado, Dante percebeu que as almas que ali estavam (mais de sete, com ceretesa) vestiam roupas leves, como quem sai de férias. Em cima do automóvel, malas e todo tipo de bugiganga imaginável. Claramente aquela família imaginava passar tempos felizes em algum lugar ensolarado.

Chegando em seu destino, nosso herói deparou-se com outro castigo deste círculo. Logo que diminuiu a velocidade para procurar uma vaga inúmeros corpos vestidos por bermudas velhas e camisas estranhas surgiram das sombras. Todos indicavam para para que Dante parasse o carro ali mesmo, na rua, mas solto. As vagas não existiam, em lugar algum. Foram mais duas horas procurando um lugar para estacionar.

Créditos da foto: Marcelo Almeida, engarrafamento em Recife.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Divina Comédia




Inferno

Logo que chegou a porta do inferno, Dante deparou-se com enorme fila. Seu guia, Saramago, alertou-o que as filas são comuns no reino da infelicidade eterna. Esta primeira, era para marcar data em que deveria comparecer à repartição responsável por emitir documentação exigida pelos porteiros ifernais. O guia de nosso heroi explicou – Quatro são os documentos que deverás carregar por todo o tempo em que estiveres no inferno: primeiro deverás provar que chegastes a este mundo, com data, hora e o nome daqueles que te trouxeram, além, é claro, de testemunhas que comprovem a veracidade de tua chegada; segundo, terás que dizer a todos quem tu és, logo, te darão uma identidade em papel, com teu nome e um dos dedos, será seu primeiro número; terceiro, e logo depois, entrarás na fila para saberem que tu existes como devedor do Leviatã, pagador de todas as taxas impostas para garantir a continuidade de serviços deste inferno; por último, mas não menos importante, precisarás registrar tudo o que fizer como ofício, então tens de ter um documento para seus trabalhos, sem isto não sairás do limbo. Ainda será bom se portares papel dado pelos representantes de Deus, para que fique sempre claro que sabias por que leis seria julgado – Assim, tão obrigado quanto foi sua estada no inferno, Dante apresentou-se aos funcionários responsáveis e retirou a documentação nescessária. Tudo passou rápido, Dante entrava como convidado compulsório, não esperou em filas e foi diretamente atendido. Claramente, ver Dante passar a frente fazia parte do inferno de outros.

“Vai-se por mim à cidade dolente,

vai-se por mim a sempiterna dor,

vai-se por mim entre a perdida gente.

Moveu justiça o meu alto feitor,

fez-me a divina Potestade, mais

o supremo Saber e o primo Amor.

Antes de mim não foi criado mais

nada senão eterno, e eterna eu duro.

Deixai toda esperança, ó vós que entrais.”

Imagem de A Porta do Inferno, por Auguste Rodin, inspirada na obra de Dante. Inscrição neste mesmo portão, por Dante.

terça-feira, 10 de março de 2009

Divina Comédia

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Estavam numa roda de bar, os três amigos, e discutiam sobre a vida de Dante. Cachaça ne mesa, um dizia “O cara passou o inferno” e os outros concordavam. “Como era mesmo o nome do cara que ajudou?” outro perguntava. De forma desorganizada, garrafa esvaziando, vão lembrando dos acontecimentos.

“Foi a Beatriz” disse João. Como assim Beatriz? Os outros não entenderam. “Me disseram que Beatriz soube de Dante, que ele tava perdido, meio perturbado” e continuou “ela ligou praquele cara, como é mesmo o nome?” Caio Cesar achava que era Dejair e disse “Dejair, era esse o nome”. A memória é coisa meio ruim, atrapalhada pela cachaça não melhora e Saramago virou Dejair para aqueles três. “Então, Beatriz ligou, ela não podia ir lá, então ligou e o Dejair foi ajudar. Quem me disse foi a própria Maria, ela que viu Dante na rua e contou pra Beatriz”

Aos trinta e três anos Dante se encontra diante de um grande dilema. Seu caminho estava barrado. Dante pensa então em parar, desistir de sua caminhada pela estrada que não conhecia, e nem sabia onde iria parar. Por que enfrentar os perigos de qualquer caminho por algo desconhecido. Por que continuar se depois de tanta caminhada tinha apenas o rumo entravado por bestas?

Dante, em suas dúvidas avistou um homem. Reconheceu Saramago, que vinha a pedido de Beatriz, informada por Maria.

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Fica a minha homenagem (atrasada) às mulheres que aparecem, intercedem, ou que simplesmente existem, mesmo que muitas vezes não devidamente reconhecidas.